Allan Kardec, o
codificador e sistematizador da Doutrina Espírita.
A
Doutrina Espírita, espiritismo ou
kardecismo[1][2][3], segundo a
definição de seu codificador, o pedagogofrancês Hippolyte Léon Denizard Rivail - que
adotou o pseudônimo Allan Kardec - é uma ciência que trata da
natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo
corporal.[4] O termo mais
apropriado para designar esta doutrina é a denominação espiritismo, conforme
orientação expressa no primeiro livro da codificação da doutrina, O Livro dos
Espíritos. Já o termo "kardecismo" foi introduzido por parte dos seus
seguidores como forma de distinguí-la de outras crenças e religiões existentes,
principalmente no Brasil, sendo, entretanto, sob a luz do próprio Espiritismo um
termo equivocado, já que poderia induzir ao entendimento de que o papel de Allan
Kardec extrapola os limites da codificação e sistematização didática dos
ensinamentos da Doutrina ou que existam várias correntes de pensamento dentro do
espiritismo.
É
importante ressaltar ainda que, quem quer que acredite haver em si alguma coisa
mais do que matéria é, por definição, espiritualista, independente de sua
religião, sendo, portanto, o espiritualismo enquanto oposição ao materialismo, o
pilar fundamental da maioria das doutrinas religiosas.
No caso
do Espiritismo, a principal diferença entre esta doutrina e a maioria das demais
religiões é sua crença na possibilidade de comunicação entre o mundo corporal e
o mundo espiritual, contudo, a fé nesta possibilidade de comunicação gera grande
confusão por parte dos leigos entre o Espiritismo e as religiões
afro-brasileiras, contudo, cada uma delas possui origens completamente distintas
umas das outras.
Nascido
no século XIX, no dia 18 de Abril de 1857, com a publicação de O Livro dos
Espíritos, o Espiritismo se estruturou a partir de diálogos
estabelecidos por espíritos desencarnados que, se manifestando
por meio de médiuns, discorreram sobre
temas religiosos sob a ótica da Moral Cristã, ou seja, tendo por princípio o
amor ao próximo. Desta forma foi estabelecido o preceito primário da Doutrina,
de que só é possível buscar o aprimoramento espiritual através da caridade aos
semelhantes (Lema: Não há salvação fora da caridade), além de trazer a luz novas
perspectivas sobre diversos temas de grande relevância filosófica e
teológica.
O
Espiritismo se caracteriza pelo ideal de compreensão da realidade mediante a integração entre as três
formas clássicas de conhecimento, que seriam a ciência, a filosofia e a moral. Segundo Kardec, cada uma delas, tomada
isoladamente, tende a conduzir a excessos de ceticismo, negação ou fanatismo.[carece de
fontes?] A doutrina
espírita se propõe, assim, a estabelecer um diálogo entre as três, visando à
obtenção de uma forma original que, a um só tempo fosse mais abrangente e mais
profunda, para desta forma melhor compreender a realidade. Kardec sintetiza o
conceito com a célebre frase: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a
frente a razão em todas as épocas da humanidade”.[carece de
fontes?]
A
doutrina espírita adota a Moral cristã[nb 1], apesar de
suas concepções teológicas diferenciadas. Para os espíritas, nome dado aos
seguidores do Espiritismo, Jesus Cristo se trata do espírito mais elevado
a já ter encarnado na Terra[5], bem como o
modelo de conduta para o auto-aperfeiçoamento humano, tendo provado, pela
prática da caridade absoluta e pela
sua própria encarnação, que o homem pode suportar as provas necessárias para
a sua elevação espiritual.
Allan
Kardec, em "Obras Póstumas", propõe que o espiritismo seja
uma doutrina natural, passível de ser interpretada ou não como religião
pelos homens, isto é, capaz de colocar o homem – ou o espírito – diretamente em
relação com Deus.
Para
efeitos didáticos, os princípios foram situados na parte superior deste artigo
por serem objeto de maior interesse ao público em geral que a história do
espiritismo. Além disso, alguns leitores não visualizam o artigo inteiro e podem
ter uma impressão completamente equivocada do termo, dada a peculiaridade de sua
história. O termo sendo referenciado pela comunidade que o integra, deve ser
evidenciado por sua essência e não pelas curiosidades, pois seria uma abordagem
leviana e frívola.
A
doutrina espírita, de modo geral, fundamenta-se nos seguintes pontos:
Na
existência e imortalidade do espírito, compreendido como individualidade
inteligente da Criação Divina;
Na
defesa da reencarnação como o mecanismo natural de
aperfeiçoamento dos espíritos;
No
conceito de criação igualitária de todos os espíritos, "simples e
ignorantes" em sua origem, e destinados invariavelmente à perfeição, com aptidões idênticas para o bem
ou para o mal, dado o livre-arbítrio;
Na
possibilidade de comunicação entre os espíritos encarnados ("vivos") e os
espíritos desencarnados ("mortos"), por meio da mediunidade;
Na Lei de Causa e Efeito, compreendida como
mecanismo de retribuição ética universal a todos os espíritos, segundo
a qual nossa condição é resultado de nossos atos passados;
Na
pluralidade dos mundos habitados, a ideia de que a Terra não é o único planeta
com vida inteligente no universo.
Além
disso, podem-se citar como características secundárias:
A noção
de continuidade da responsabilidade individual por toda a existência do
Espírito;
Progressividade do Espírito dentro do processo evolutivo em todos os
níveis da natureza;
Volta do
Espírito à matéria (reencarnação) tantas vezes quantas necessárias para alcançar
a perfeição. Os espíritas não creem na metempsicose.
Ausência
de rituais institucionalizados, a exemplo de batismo, culto ou cerimônia para
oficializar casamento;
Incentivo ao respeito para com todas as religiões e opiniões.
Embora a
Doutrina Espírita não seja oriunda do Brasil, este é o país que possui a maior
quantidade de adeptos.[6] A Federação Espírita
Brasileira, que integra o Conselho Espirita
Internacional, é a principal entidade divulgadora da Doutrina
Espírita no Brasil. Outra organização de vulto é a Confederação Espírita
Pan-Americana. Esta última não concebe o espiritismo como religião,
centrando-se apenas nos seus aspectos filosóficos e científicos.
Obras
básicas
A seguir
são apresentadas algumas das principais obras publicadas por Allan Kardec, entre
as quais encontram-se as chamadas obras básicas do
espiritismo.
O Livro dos
Espíritos
Publicação do Livro dos Espíritos de 1860 em Paris.
O Livro dos
Espíritos[7],
publicado em 1857, nele estão contidos
os princípios fundamentais da Doutrina Espírita
Instruções
Práticas sobre as Manifestações Espíritas
Este
livro foi publicado em 1858 por Allan Kardec,
porém com uma pequena tiragem. Em vez de reeditá-lo, Kardec preferiu diluir o
seu conteúdo nas novas edições d'O Livro dos Espíritos e, futuramente,
em O Livro dos Médiuns.
O Livro dos Médiuns[8], ou
"Guia dos Médiuns e dos Evocadores",
foi publicado em 1861 e versa sobre o
caráter experimental e investigativo do espiritismo, visto como ferramenta
teórico-metodológica para se compreender uma "nova ordem de fenômenos", até
então jamais considerada pelo conhecimento científico: os fenômenos ditos
espíritas ou mediúnicos, que teriam como causa a intervenção de espíritos na
realidade física.
Evangelho Segundo
o Espiritismo
O livro
O Evangelho Segundo o
Espiritismo[9], publicado em 1864, avalia os evangelhos canônicos sob a
óptica da doutrina espírita, tratando com atenção especial a aplicação dos
princípios da moral cristã e de questões de ordem religiosa como a prática da
adoração, da prece e da caridade.
O Céu e o
Inferno
O livro
O Céu e o Inferno[10], ou "A Justiça
Divina segundo o Espiritismo", foi publicado em 1865 e compõe-se de duas partes: na primeira,
Kardec realiza um exame crítico da doutrina católica sobre a transcendência, procurando
apontar contradições filosóficas e incoerências com o conhecimento científico
superáveis, segundo ele, mediante o paradigma espírita da fé raciocinada. Na
segunda, constam dezenas de diálogos que teriam sido estabelecidos entre Kardec
e diversos espíritos, nos quais estes
narram as impressões que trazem do além-túmulo.
A
Gênese
O livro
A Gênese[11], ou "Milagres e
as Predições segundo o Espiritismo", foi publicado em 1868 e aborda diversas questões de ordem
filosófica e científica, como a criação do universo, a formação dos mundos, o surgimento
do espírito e a natureza dos ditos milagres, segundo o paradigma espírita de compreensão da
realidade.
Doutrina espírita
e cristianismo
Os
espiritistas (tradução muito usada durante as primeiras décadas do século XX
para o neologismo francês spirite) ou espíritas, afirmam-se cristãos e
atribuem à doutrina espírita o caráter de uma doutrina cristã, já que consideram
seguir os ensinamentos morais de Jesus. Entretanto, essa associação entre o espiritismo e o cristianismo é contestada pelas religiões de
matriz judaico-cristã, sob a alegação de que, embora partilhem de valores morais
semelhantes, a rejeição espírita a diversos dogmas bíblicos e teológicos
preconizados por elas inviabilizaria a conceituação do espiritismo como
cristão.
Os
espíritas fundamentam sua defesa do carácter cristão da doutrina espírita no
fato de Allan Kardec defender que a moral cristã, isenta dos dogmas de fé a ela associados, seria o que de
mais próximo a um código de ética divino e racional o homem possui. Os espíritas
argumentam que os dogmas foram elaborados ao longo dos séculos pela Igreja
Católica, não sendo, por isso, necessário segui-los para ser cristão. Além
disso, o item 625 d'O Livro dos Espíritos afirma ser Jesus o maior
exemplo moral de que dispõe a humanidade, apesar de o espiritismo negar a ele
qualquer carácter efetivamente divino.[12]
A
professora Dora Incontri, pós-doutorada pela Faculdade de
Educação da Universidade de São Paulo,
também defende o caráter cristão da doutrina espírita, apontando, na proposta
estruturada por Allan Kardec, um novo modelo de religião, alheio a dogmas,
fórmulas, hierarquias sacerdotais e baseado eminentemente no aspecto ético-moral
do indivíduo. Considera ainda Jean-Jacques Rousseau e Johann Heinrich Pestalozzi
como os dois grandes precursores da ideia de uma "religiosidade natural",
predominantemente moral, e defende que "evidenciou-se com a publicação de "O
Evangelho segundo o Espiritismo" e de "O Céu e o Inferno" que, embora não o
confessasse, ele [Kardec] estava fazendo uma nova leitura do
Cristianismo".[13]
Um
estudioso da religiosidade brasileira mais cético, o Prof. Antônio Flávio Pierucci,
do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, centra sua análise
em aspectos sociológicos ao defender que o espiritismo não é uma religião legitimamente
cristã. Segundo ele, os espíritas utilizam o cristianismo para se legitimarem.
Pierucci defende também que o vínculo com a Igreja Católica, defendido pelos espíritas
serviu, durante décadas, para lutar contra a discriminação e a
intolerância.[14]
O conceito
bíblico
As
religiões de matriz judaico-cristã entendem que, com a Lei dada a Moisés no Antigo Testamento, Deus interditou à antiga
Israel as comunicações com o mundo dos espíritos e o uso de poderes
sobrenaturais por eles concedidos. "… não haverá no meio de ti ninguém que
faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, que interrogue os oráculos,
pratique adivinhação, magia, encantamentos, enfeitiçamentos, recorra à
adivinhação ou consulte os mortos (necromancia)" (Deuteronômio 18:10-14). Afirmam
ainda que essa proibição é confirmada no Novo Testamento, pelas referências contidas
nos Evangelhos e no livro de
Atos dos Apóstolos aos "espíritos impuros". A
citação do apóstolo Paulo em Gálatas 5:20, afirma que quem pratica "feitiçaria" (ou
bruxaria, o termo grego usado é farmakía) … não herdará o Reino de
Deus". (Na Tradução do Novo Mundo das Escrituras
Sagradas, o termo é vertido por "espiritismo". Mas esta aplicação da
palavra não se refere, por óbvias razões cronológicas, à doutrina espírita). É
comum encontrar referências ao uso do termo Espiritismo para denominar outras
doutrinas e cultos que não sejam aquela codificada por Allan Kardec.
Já para
a doutrina espírita, a Bíblia não condena a prática mediúnica em si,
pois esta seria fundamentada em um fenómeno natural. A condenação bíblica, que
também encontra apoio no movimento espírita, é a uso dos recursos mediúnicos
para finalidades frívolas ou voltadas ao benefício próprio. Segundo ela,
diversas passagens bíblicas exemplificariam a fenomenologia mediúnica, a exemplo
de I Samuel 9:9, II Crônicas 16:7, e Mateus 17:1-8.
Ao mesmo
tempo, a postura analítica da Doutrina Espírita propõe que se avaliem os textos
bíblicos, quando verdadeiramente originais, de forma crítica, levando em conta o
seu patamar simbólico, em função dos recursos vocabulares e figuras de linguagem
disponíveis à época, em ensinamentos dirigidos a um povo simples e sem
repertório, e, consequentemente, desprovido das complexidades e riquezas
linguística, cultural e material necessárias para a compreensão de conceitos que
nem mesmo o homem atual, como todas as suas aquisições intelectuais, é capaz de
compreender em toda a sua profundidade.
O diálogo com as
religiões
A
posição oficial da Igreja Católica proíbe terminantemente aos seus fiéis
assistir a sessões mediúnicas realizadas ou não com auxílio de médiuns espíritas
- mesmo que estes pareçam ser honestos ou piedosos - quer interrogando os
espíritos e ouvindo suas respostas, quer assistindo por mera curiosidade.
Posições similares têm as religiões evangélicas.
No
entanto, a Igreja Católica não nega a possibilidade física de comunicação com
entidades espirituais. Em pesquisas recentes, sob a tutela do Papa João Paulo II, o Padre
François Brune publicou o livro Os Mortos nos Falam, em que defende a
realidade das comunicações com os espíritos. Além disso, principalmente no
Brasil, é possível observar uma maior tolerância por parte de muitos leigos
católicos às práticas mediúnicas.[15]
Atualmente, muitas comunidades evangélicas, apesar de não concordarem
com os preceitos teológicos e filosóficos do espiritismo, têm procurado, da
mesma forma, manter com este uma relação respeitosa, por reconhecer nos
trabalhos sociais desenvolvidos pelas casas espíritas uma atividade séria e
comprometida. Algumas, inclusive, têm buscado uma aproximação concreta com as
instituições espíritas, seja por meio da realização de cultos ecumênicos, seja através do diálogo
inter-religioso.
A
doutrina espírita, por sua vez, respeita todas as religiões e doutrinas,
valoriza todos os esforços para a prática do bem e trabalha pela
confraternização e pela paz entre todos os povos e entre todos os homens, embora rejeite
firmemente, reitere-se, dogmas fundamentais das religiões monoteístas; no caso
particular do cristianismo, destacam-se o da divindade de Cristo, o da
Santíssima Trindade, o da salvação/justificação pela graça (mais que pelas
obras/esforços individuais), e o da existência e importância da Igreja como
entidade espiritual, não apenas humana. Por isso existe uma barreira muito
dificilmente transponível entre os católicos tradicionais e os espíritas. O
Espiritismo tem como máxima a frase "Fora da caridade não há salvação", o que
significa que, em sendo benevolente e caridoso, qualquer um será gratificado,
independentemente da sua crença - ao contrário do que creem os cristãos, que é a
justificação pela fé em Cristo como Deus encarnado, e pelos Seus méritos, muito
mais que pelos seus[carece de
fontes?].
Contexto
Durante
o século XIX houve uma
grande onda de manifestações mediúnicas nos Estados Unidos e na Europa. Estas manifestações consistiam
principalmente de ruídos estranhos, pancadas em móveis e objetos que se moviam
ou flutuavam sem nenhuma causa aparente. Entre eles destacou-se o caso das Irmãs Fox, nos
EUA.
Em 1855, o professor Denizard Rivail, que depois
adotou o pseudônimo de Allan Kardec, lançou-se à investigação do
fenômeno, bastante comum à época, das mesas girantes ou dança das mesas, em que
mesas e objetos em geral pareciam animar-se de uma estranha vitalidade.
Inicialmente cético, chegou a afirmar: "Eu crerei quando vir e quando
conseguirem provar-me que uma mesa dispõe de cérebro e nervos, e que pode se
tornar sonâmbula; até que isso se dê, deem-me a permissão de não enxergar nisso
mais que um conto para dormir em pé". Após dois anos de pesquisas, não viu
constatação de fraudes e nem um motivo
para englobar todos os acontecimentos dessa ordem no âmbito das falácias e/ou charlatanices. Pessoalmente
convencido não só da realidade do fenômeno, que considerou essencialmente real
apesar das mistificações existentes, mas também da possibilidade dele ser
causado por espíritos, Rivail deu um passo adiante: em lugar de dedicar o resto
de sua vida à busca por "provar cientificamente" a explicação mediúnica para os
fenômenos, procurou extrair da possibilidade de que fossem causados pela ação de
espíritos algo de útil para a humanidade.
A
robusta formação humanística por que passara, bebendo
diretamente de Pestalozzi, discípulo dileto de Rousseau, não poderia limitá-lo a uma pesquisa
meramente naturalista. A necessidade de dar algum
suporte à espiritualidade humana numa época em que a ciência avançava a passos
largos e as religiões perdiam cada vez
mais adeptos despertou em Kardec a ideia de um novo modo de pensar o real, que
unisse, de forma ponderada, a ascendente Ciência e a decadente Religião,
mediadas pela racionalidade filosófica. Assim, Kardec fez uso do empirismo científico para
investigar os fenômenos, da racionalidade filosófica para dialogar com o
que presumiu serem espíritos e analisar suas proposições, e
buscou extrair desses diálogos consequências ético-morais úteis para o ser humano. Surgia aí,
mais precisamente em 18 de abril de 1857, a doutrina espírita, sistematizada na
primeira edição de O Livro dos Espíritos.
Os
fenômenos mediúnicos são universais e sempre existiram, inclusive fartamente
relatados na Bíblia, mas os espíritas e muitos outros defensores da explicação
mediúnica para os chamados "fenômenos sobrenaturais" ou "paranormais" adotam a
data de 31 de março de 1848 como o marco inicial das modernas
manifestações mediúnicas, alegadamente mais ostensivas e frequentes do que
jamais ocorrera, o que levou muitos pesquisadores a se debruçarem sobre tais
fenômenos. Afirmam, contudo, que acontecimentos envolvendo espíritos (pessoas
que já morreram) existem desde os primórdios da humanidade.
Entre
outros, citam como exemplo os comentários de Platão ao falar sobre o dáimon ou
gênio que acompanharia Sócrates; a proibição de Moisés à prática da "consulta aos mortos", que
seria uma evidência da crença judaica nessa possibilidade, já que não se
interdita algo irrealizável; e a comunicação de Jesus com Moisés e Elias no Monte Tabor, citada em Mt, 17,
1-9.
Estudo sobre as
mesas girantes
Segundo
os biógrafos, Allan Kardec
foi convidado por Fortier, um amigo estudioso das teorias de Mesmer, a verificar o fenômeno das mesas
girantes com a disposição de observar e analisar os fenômenos que
despertavam curiosidade no século XIX.
As
primeiras manifestações tidas como mediúnicas aconteceram por meio de mesas se
levantando e batendo, com um dos pés, um número determinado de pancadas e
respondendo, desse modo, sim ou não, segundo fora
convencionado, a uma questão proposta.
Kardec,
em analisando esses fenômenos, concluiu que não havia nada de convincente neste
método para os céticos, porque se podia
acreditar num efeito da eletricidade, cujas propriedades eram pouco
conhecidas pela ciência de então. Foram então utilizados
métodos para se obter respostas mais desenvolvidas por meio das letras do alfabeto: o objeto móvel, batendo um número de
vezes corresponderia ao número de ordem de cada letra, chegando, assim, a
formular palavras e frases respondendo às perguntas
propostas.
Kardec
concluiu que a precisão das respostas e sua correlação com a pergunta não
poderiam ser atribuídas ao acaso. O ser misterioso que assim respondia, quando
interrogado sobre sua natureza, declarou que era um espírito ou
gênio, deu o seu nome e forneceu diversas informações a seu
respeito.
Fenômenos
espíritas e a ciência
A
investigação dos fatos e causas do fenômeno mediúnico é objecto de estudo pela
Pesquisa Psíquica, ramo da parapsicologia (substituindo a metapsíquica), que tem
como interesse fundamental a averiguação da ocorrência dos aludidos fatos. Vêm
fazendo-se investigação séria e científica, e por vezes,
em nível universitário, mas até o
momento sem qualquer evidência científica reprodutível. Também, a doutrina
espírita utiliza uma metodologia científica
própria, sem o rigor científico habitual e baseada muitas vezes em evidências
anedóticas.
Kardec,
no preâmbulo de O que é o Espiritismo, afirma que o espiritismo "é uma
ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas
relações com o mundo corporal". Dentro dessa perspectiva, Kardec teria fundado a
"ciência espírita", tendo como objeto o espírito e toda a ordem de fenômenos que a ele
dizem respeito. Na Revista Espírita, que publicou até sua
morte, analisa vários relatos de fenômenos aparentemente mediúnicos ou
sobrenaturais oriundos de diversas partes do mundo. Procurava distinguir, entre
os relatos que lhe chegavam, os acontecimentos prováveis, ou pelo menos
verossímeis, daqueles oriundos do charlatanismo ou da simples imaginação
superexcitada.
Durante
o século XIX, uma
controversa forma de evidenciar a existência de espíritos era a chamada fotografia espírita, que obteve sucesso
especial na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França. Fotógrafos amadores e profissionais
dedicavam-se a ela, fosse com o intuito de desmascarar o que consideravam ser
uma fraude, fosse para
demonstrar a autenticidade do fenômeno. Apesar das muitas fraudes existentes,
casos famosos como o do americano Mumler suscitam até hoje
debates entre investigadores.
Promoção
da união solidária e fraterna das instituições espíritas de todos os países e a
unificação do movimento espírita mundial;
Promoção
do estudo e da difusão da Doutrina Espírita em seus três aspectos básicos, quais
sejam o científico, o filosófico e o religioso;
Promoção
da prática da caridade material e moral, conforme ensina a Doutrina
Espírita.
O
principal evento organizado pelo CEI é o Congresso Espírita Mundial, realizado a
cada três anos.
Confederação
Espírita Pan-Americana
A Confederação Espírita
Pan-Americana, fundada em 5 de outubro de 1946 na Argentina, é uma instituição internacional,
que congrega majoritariamente espíritas da América Latina. A CEPA possui
instituições adesas e filiadas em diversos países, e defende uma visão laica a respeito do espiritismo. A organização
assume posicionamentos polêmicos entre os espíritas, como a desvinculação entre
a doutrina e o cristianismo e a necessidade de se atualizar o espiritismo em
face da ciência. Desde o dia 13 de outubro de 2000, a sede da CEPA passou a ser Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A
atuação da CEPA no Brasil se dá, principalmente, através de eventos promovidos
por instituições adesas, como o Fórum do Livre Pensar
Espírita e o Simpósio Brasileiro do Pensamento
Espírita.
Divulgado em praticamente toda a Europa no século XIX, o Espiritismo chegou ao Brasil em 1865. Teve através de Bezerra de Menezes e
Chico Xavier a oportunidade de se popularizar, espalhando seus ensinamentos por
grande parte do território brasileiro. Hoje, o país é o que reúne o maior número
de espíritas em todo o mundo. A Federação Espírita
Brasileira – entidade de âmbito nacional do movimento espírita –
congrega aproximadamente dez mil instituições espíritas, espalhadas por todas as
regiões do país. Atualmente, o Brasil possui 2,3 milhões de espíritas, de acordo
com o último censo[16] realizado pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), em 2000. Com efeito, o IBGE trata os termos
Kardecismo e Espiritismo como equivalentes em sua classifição censitária.[17]Terceiro maior
grupo religioso do País, os espíritas são, também, o segmento social que têm
maior renda e escolaridade, segundo os dados do mesmo Censo. Os espíritas têm
sua imagem fortemente associada à prática da caridade. Eles mantêm em todos os estados
brasileiros asilos, orfanatos, escolas para pessoas carentes, creches e outras instituições de assistência e
promoção social. Allan Kardec, o codificador do espiritismo, é
uma personalidade bastante conhecida e respeitada no Brasil. Seus livros já venderam mais de 20 milhões de
exemplares em todo o País. Se forem
contabilizados os demais livros espíritas, todos decorrentes das obras de
Allan Kardec, o mercado editorial brasileiro espírita ultrapassa 4.000 títulos
já editados e mais de 100 milhões de exemplares vendidos.
Após a
legalização das religiões em Cuba, houve um renascimento do
espiritismo, que vinha ocorrendo no país desde o século XIX.
Segundo
dados do Ministério das Religiões, em Cuba, há 400 centros espíritas e mais 200
sendo registrados, tornando o país o segundo país mais espírita do mundo, por
número de centros. A Associação Médico Espírita de Cuba é a com o maior número
de militantes na Associação Médico-Espírita Internacional.[18]
Um foco
importante de críticas à Doutrina Espírita se volta contra os dogmas do
Espiritismo, como a reencarnação, a mediunidade e a lei da evolução
espiritual. Grupos de céticos e de cristãos contestam também a
caracterização do espiritismo como um movimento científico e cristão, defendida
por adeptos.[19][20][21]
↑Léon Denis escreveu: "O ideal que
proclamam as vozes do mundo invisível não é diferente daquele do fundador do
cristianismo". René Kopp também escreveu:
"O Espiritismo será cristão ou nada será". Mais detalhes sobre esta
percepção podem ser obtidos em O Espiritismo
Cristão.
Referências
↑Enciclopédia Barsa. Encyclopaedia Britannica
Editores Ltda., 1970.
↑Spiritism/Kardecism.
Universidade de Cumbria. Página visitada em 13 de abril de
2010.
↑ Allan Kardec. O Que é o Espiritismo: noções
elementares do mundo invisível pelas manifestações dos espíritos; tradução
direta do original francês por Wallace Leal V. Rodrigues. São Paulo: Ed. LAKE,
1998
↑ Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, questão
número 625.
↑ Estas informações são encontradas nas planilhas
disponibilizadas pelo IBGE no seguinte endereço:[1]. Encontram-se réplicas destes dados nos seguintes
sítios: [2], [3] e [4]
COLOMBO,
Cleusa B. Idéias sociais espíritas. São Paulo, Comenius, 1998.
DOYLE, Arthur Conan. História do
Espiritismo. São Paulo, Ed. Pensamento, 1960.
INCONTRI, Dora. Pedagogia Espírita, um Projeto Brasileiro e suas
Raízes. Bragança Paulista, Comenius, 2004.
LAPLANTINE François e AUBRÉE Marion. La table, le livre et les
Esprits - Naissance, évolution et actualité du mouvement social spirite entre
France et Brésil. Paris, Ed. Lattès, 1990.
PESOLI,
Fabrizio. Aspetti della ricerca scientifica sullo spiritismo in Italia
(1870-1915), Università degli Studi di Milano 1999. 1
STOLL,
Sandra. Entre Dois Mundos: o Espiritismo da França no Brasil. Tese de
doutorado, São Paulo, USP, 1999.
RANDI, James. The Faith Healers. Prometheus Books, 1989